O edifício do Salão Central Eborense encontra-se hoje em elevado estado de degradação, decorrente da sua não utilização e abandono há quase 30 anos. Neste momento, pode definir-se a estrutura existente como um conjunto de planos que desenham a rua e definem a caixa onde antes se encontrava a sala de cinema e os balcões.

Perante um edificado com qualidades intrínsecas, quer pelo desenho arquitectónico, quer pela sua relação com o território e com a comunidade, mas em estado próximo da ruína, entende-se que o existente deve ser o material estruturante e estruturador do processo: encarar o existente como material de projecto, procurando transformá-lo a partir de dentro, potenciando as suas qualidades, dentro de uma cultura de precisão e de proximidade, onde o existente se erige como suporte poderoso para a imaginação.

Com uma longa história de intervenções na primeira década do séc. XX, das quais a última de Francisco Keil do Amaral (1945), o Salão Central Eborense esteve encerrado desde o ano de 1986. Trata-se de um edifício de enorme importância, pela sua escala e carácter público, na malha urbana do centro histórico de Évora.
Do programa preliminar fornecido pelo município de Évora, constavam dois desafios estruturantes. A alteração da entrada principal para o Páteo do Salema (que se pretende que venha a servir de gerador da requalificação deste emblemático páteo do centro histórico) e o desenho de uma sala polivalente/blackbox que permitisse a concretização de um espaço adaptável às práticas artísticas e performativas contemporâneas.

Imagens

Memória descritiva

Quanto ao esquema funcional da proposta, aponta-se uma nova entrada principal, a partir do Pátio do Salema, potenciando-o enquanto espaço central de acesso. Com este novo acesso, a proposta procura manter e potenciar a entrada existente, articulando os dois acessos através de uma passagem/foyer.

A cota do piso 0 da proposta passa a alinhar-se pela cota do novo acesso. Uma vez que a capacidade da sala polivalente se reduz de forma significativa (de 548 lugares para menos de 200), é possível reduzir o seu pé-direito, propondo que passe para o primeiro piso e libertando o piso da entrada para zonas técnicas, administrativas e de apoio à sala. Assim, no piso 0 organiza-se a zona dos artistas (camarins, sala de direcção, reuniões), uma área técnica de acesso condicionado ao palco e às cargas e descargas, a zona da bilheteira/bengaleiro, a zona das instalações sanitárias e o bar.

Fruto da alteração da cota do piso 0, é possível inserir uma sala de ensaios no piso inferior, sem necessidade de grande trabalho de escavação.

A sala polivalente é ponto central de todo o programa e do edifício, sendo proposta a inversão da área do palco, tal como existia no edifício anterior ao projecto de Keil do Amaral. Esta inversão faz com que o acesso do público se faça pela zona do gaveto, zona de excepção com iluminação natural, e a zona de palco, o acesso a monta cargas e os camarins se faça pela parede cega, no extremo oposto, delimitando toda a zona técnica nesse local.

A tipologia da sala, que se entende adequada para que possa responder a um grande número de actividades, é a de polivalente ou blackbox e parte do entendimento do espaço como uma caixa, que oferece o máximo de hipóteses de ocupação e organização com toda a liberdade e flexibilidade, através de um sistema de bancada retráctil e de uma teia que cubra toda a sala.

A proposta passa, ainda, por potenciar a zona do gaveto, com os acessos verticais e a zona do bar, que se relaciona com os pisos superiores através de mezzanines. Por fim, é proposto um terraço, apenas na zona do gaveto, aproveitando a cota existente cuja vista é filtrada pelas gelosias na fachada.

Relativamente às materialidades propostas, não há, no exterior, nenhum novo material que se diferencie do existente. As fachadas são rebocadas à cor das paredes existentes, a pedra adicionada é, também ela, igual à existente, e a nova cobertura de asnas metálicas mantém a tradicional telha cerâmica de canudo. No interior há um jogo de preto, branco e cinzento na delimitação das zonas de acesso ao público, recorrendo, pontualmente, a materiais absorventes e autóctones como a cortiça nos espaços de estar.

Além da aplicação de revestimentos acústicos e de madeira que forram, a negro, a sala principal e, a branco, a sala de ensaios, destacam-se, na definição dos acessos verticais, apontamentos a vermelho.

Ficha técnica

Nome do projecto
Salão Central Eborense
Categoria geral
Equipamento
Reabilitação
Fotografias
FG+SG
Localização
Évora, Portugal
Estado
Em curso
Áreas
1700m2
Data de início
2017
Estruturas
BETAR – Eng.º José Pedro Ferreira Venâncio
Hidráulicas
BETAR – Eng.ª Andreia Cardoso
Electricidade
EACE – Eng.º João Caramelo
Telecomunicações
EACE – Eng.º João Caramelo