Há seis anos um pequeno proprietário da Quinta do Ferro bateu-nos à porta do atelier. Queria saber como se fazia um daqueles projectos participativos de que nos tinha ouvido falar na televisão. Tudo começou assim.



[Público, 4 de Julho de 2020]

Mobilizou-se outros proprietários e moradores. Concorremos ao programa Energia BIP/ZIP da Câmara Municipal de Lisboa e conseguimos, em um ano, criar uma associação de moradores e proprietários - AQF - Amigos da Quinta do Ferro - e desenvolver, em 18 meses, o plano urbanístico, participado, de que se fala na notícia. Entregámo-lo ao município em 2017.
De permeio a associação criada ainda se juntou aos nossos Working with the 99% - Trabalhar com os 99%, como uma das mais activas cooperadoras e na Presidência do nosso Conselho Fiscal.
Tudo correu bem enquanto estivemos no plano do desenvolvimento local e da habitação. Chegados ao urbanismo da CML, percebeu-se que aquele território não era uma prioridade política e que a forma aberta e participativa como tínhamos chegado até àquele ponto era motivo de ridicularização. Como nos foi dito por um alto dirigente municipal em nome do município de Lisboa, a reabilitação deste bairro só seria possível no dia em que houvesse um grande proprietário a deter a maioria do território e, dessa forma, a CML pudesse articular com ele a requalificação urbana e o investimento público...
(um daqueles momentos muito tristes arquivados na nossa pasta das más memórias).
A AQF - Amigos da Quinta do Ferro, Associação de Proprietários e Moradores mantém a sua actividade e, com o pelouro da Habitação e outros bairros, fomos tentando ensaiar uma candidatura a financiamentos europeus que nos permitisse continuar este processo mantendo a estrutura de pequenos proprietários e os moradores que ali habitam.
Com a entrada da pandemia nas nossas vidas, a situação na Quinta do Ferro degradou-se muito. Estes meses, conseguiu-se criar um Fórum Local e, com o apoio do Desenvolvimento Local e da Junta de Freguesia de São Vicente, um auxílio de emergência de cabazes alimentares.
Este artigo no Público, é demonstrativo da resiliência das pessoas que têm levado para a frente este projecto de associativismo local. Estamos firmemente convictos que será por esta via que se poderá requalificar de uma forma sustentável a cidade e esperamos ansiosamente que o novo vereador do urbanismo da CML possa olhar para este território de uma outra forma, mais próxima de quem lá está.